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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Insectos para a sobremesa

Os odores que se libertavam das mesas espalhadas pela calçada daquela rua de Bangecoque eram alucinantes; o que vale é que o serviço é, por norma, tão rápido nestes restaurantes de rua que nem dá tempo para perder a cabeça com a gula.

Sentámo-nos com 4 amigos Tailandeses numa mesa de madeira com cadeiras velhas a acompanhar e em menos de 10 minutos tínhamos uma banquete de comida Tailandesa à nossa frente. Salada fria de caranguejos minúsculos e legumes crus, tom yum (indispensável), arroz glutinoso (sticky rice) ao vapor e caril de beringela tailandesa ( thai eggplant - esta beringela é bastante diferente da beringela comum Portuguesa - a foto abaixo ilustra as diferenças - mas é super saborosa e em caril amarelo Tailandês é deliciosa.)

[caption id="" align="aligncenter" width="480"] Beringela Thai - Thai Eggplant - Imagem em Creative Commons por Pullao em http://www.flickr.com/photos/27083124@N00/119298916/[/caption]

 O caril de beringela thai vinha acompanhado por rotti, uns pãozinhos fininhos estaladiços, muito ao género tortilha ou pão nan Indiano, mas mais fino e estaladiço.Quer dizer, depende dos sítios a textura do rotti; em alguns lugares era mais grosso e oleosos e noutros mais fino. Aqui era impecável. Havia também uns talos e folhas de uma planta fritos num género de tempura, servidos com um molho vermelho extra picante a ácido. Na ementa o prato chama-se Pa Pak Boon e em inglês, Fried Morning Glory. Mas esta não é a "nossa" Glória da Manhã é uma espécie de Ipomeia aquática com flores brancas que cresce bem em lagos de água doce e é comum no Sudeste Asiático. Em alguns lugares, o molho leva carne de porco picada mas pode-se pedir sem até porque nos molhos a carne está quase sempre crua.


Depois veio para a mesa um grande tacho de barro com a água já bem quente e umas brasas por baixo que mantinham o tacho quente. Era um género de fogareiro de barro antigo, daqueles que se usava para as castanhas. Com este fogo ambulante vinham travessas de ingredientes crus. Uma quantidade gigante de ervas - folha de lima kefir, lemongrass com fartura, galangal,cogumelos frescos grandes e pequenos, pedaços de carne de frango aos cubinhos, tomates e cebola.

Vai tudo para dentro do tacho, uma das mulheres da mesa mexe a comida enquanto um dos homens lança lá para dentro mais uma mão cheia de folhas de lima. Em 10 minutos está tudo pronto para vir para as nossas tigelas. Por esta altura já a minha tinha estado cheia e vazia várias vezes com todos os caris, saladas, pães, arroz e tudo o que Se colocasse nem mesa com excepção das coisas cruas. Quando estive em Bangecoque optei por não levar vacinas por isso tínhamos sempre muito cuidado com a comida. Tenham também porque os Europeus podem facilmente apanhar grandes problemas intestinais neste países tropicais para os quais os nossos sistemas imunitários podem, por vezes não estar preparados. Bactérias nas comidas não cozinhada são comuns e uma dica para se manterem saudáveis nestes locais é evitar comer alimentos crus. Sopas, caris, molhos quentes, arroz e afins,coisas fritas: enfim, tudo o que tenha estado exposto a temperaturas elevadas é mais seguro.




Na mesa bebia-se a bela da cerveja nacional Chang quando passou pela estrada um vendedor ambulante de insectos fritos. Nós andávamos a evitar este confronto. Já tínhamos estado a considerar provar porque tinha que ser mas andávamos a adiar. Agora, estávamos aqui, com 4 tailandeses a comprar-nos saquinhos de grilos e larvas fritas em manteiga de amendoim e temperados com molho de soja e  todos a comer com um ar satisfeito. Claro que não podíamos ficar a olhar sem sequer experimentar e claro que houve toda aquela camaradagem engraçada porque eles sabem o que é que nós sentimentos em relação a isto. Eles sabem que os achamos exóticos" a comer grilos" e acham-nos exóticos, a nós, de volta.




Então e nós estávamos ali para provar (quase!) tudo e provámos. E era bom! Na verdade eram bem saborosas as larvas com um sabor a frutos secos, quase pinhão. A textura era boa também, rijas por fora e suficientemente rijas por dentro para não se tornar repulsivo. O grilo era muito estaladiço e sabia a molho de soja e óleo de amendoim. Por piada fizemos uns filmes para imortalizar as trincadelas, afinal foram os nosso primeiros insectos e não dava para não arranjar pretexto para vibrar com a situação.

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Coisas Para Comer em Bangkok - Tom Yum

De madrugada, à tarde, às horas mais improváveis e debaixo de qualquer tempo, há sempre comida com fartura pelas ruas de Bangkok. Claro que existem os restaurantes normais, dentro de 4 paredes e até alguns à porta fechada, para todos os gostos e algibeiras mas a maior parte dos locais come nas bancas de rua. É bem mais barato, mais rápido e mais prático.

Em Bangkok não é muito comum cozinhar-se em casa. Apenas as famílias grandes cozinham e comem em casa; as outras, comem na rua porque lhes sai mais barato e nem se preocupam nada. A comida Tailandesa é o orgulho dos seus habitantes e eles honram-na em cada canto. Os restaurantes mais direccionados e frequentados pelos habitantes da cidade, são clássicas esplanadas de rua, onde se juntam grupos animados à volta do tacho de barro com água a ferver que vem para a mesa para depois lhe juntarmos os ingredientes frescos que nos trazem dentro de cestos e pratos. 

[caption id="" align="aligncenter" width="484"] Refeição num restaurante de rua em Bangkok[/caption]

Eu cheguei a Bangkok cheia de intenções de provar tudo o que conseguisse no espaço de tempo da minha visita mas no segundo dia conheci logo o Tom Yum e apesar do nosso primeiro encontro ter sido uma confusão de golos largos de cerveja para acalmar a garganta, não desisti dele e quando comecei a ficar com garganta de ferro Tailandesa  percebi que tinha descoberto o meu novo prato favorito. Um prato tão simples e despretensioso, que só é impróprio para não gosta de sabores ácidos e picantes ao mesmo tempo.

 Tom Yum de frango



Tom Yum de frango
Tom Yum - de cogumelos, de frango, de camarão, de "comida do mar" ( esta opção pode levar de polvo a lulas a mariscos vários) ou simples, a Tom Yum é o meu prato tailandês favorito, desde há dois meses. É que dantes nunca tinha provado mas agora como voltar atrás? Como todos os pratos Tailandeses, as receitas não são nada restritivas. O que é comum a todos os Tom Yum é a sua base de temperos. Os ingredientes extra podem mudar, bem como a opção de colocar leite ( normalmente de coco) ou não, na sopa. 

Os ingredientes base da Tom Yum são o lemongrass ( em Portugal existe uma espécie parecida de citronela com o nome de erva-príncipe), folhas de lima Kfir, raiz fresca de galangal, sumo de lima e chillies. Em alguns locais colocam-lhe coentros e manjericão.

[caption id="attachment_375" align="aligncenter" width="587"]Tom Yum em Pak Chong. Um dos melhores que comi na Tailândia. Tom Yum em Pak Chong. Um dos melhores que comi na Tailândia.[/caption]

A este caldinho pode juntar-se tomates, cogumelos, muita cebola, cenouras, todo o tipo de legumes cortados, camarões, carne de frango, lulas, polvo e outros mariscos. A sopa leva também molho de peixe e pode levar ou não leite de vaca ou, mais comummente, de coco.

Na Tailândia é fácil encontrar Tom Yum de qualquer espécie. O único restaurante que foi onde não havia Tom Yum foi uma pastelaria. Claro que não visitei todos os restaurantes de Bangkok mas acho seguro dizer que na maior parte se encontra esta sopa. Quanto mais autênticos os restaurantes, melhor vai ser a sopa. Os tailandeses são exigentes com a sua comida e não servem pratos mal feitos aos seus conterrâneos.  

O preço, dependendo do local, varia entre os 40 e os 150 bhat, o equivalente a entre 1 a 5€. Depende de onde escolheres provar.

A sopa é muito picante. Extremamente picante. Tão picante que no primeiro dia não a conseguíamos comer. Normalmente servem-nos um prato de arroz cozido com a sopa para entre-calarmos ou misturarmos com o molho. Na minha primeira vez, para conseguir comer a sopa, tinha que ser uma colher de sopa , um golo de cerveja, uma colher de arroz. E mesmo assim, ardia na garganta. Passados uns dias, já pedíamos para não terem pena de nós no picante.

O ser picante é uma característica normal dos pratos Tailandeses e apesar de ser apreciadora de comida picante, tivemos que lutar pelo nosso direito a apreciar um belo prato de Tom Yum sem sofrer muito.

[caption id="attachment_372" align="aligncenter" width="367"]Tom Yum de camarão  na guesthouse River View. Este foi o primeiro Tom Yum que provei na Tailândia e adorei mas mais tarde iria provar muito melhor. Tom Yum de camarão na guesthouse River View.
Este foi o primeiro Tom Yum que provei na Tailândia e adorei mas mais tarde iria provar muito melhor.[/caption]

 

As propriedades dos chillies , do galangal, do lemongrass e da lima kfir  fazem com que esta sopa tenha também uma popularidade muito peculiar na Tailândia.  É considerada curativa e durante muitos anos o povo Tailândia utilizou-a como uma panaceia para curar gripes, constipações e problemas de estômago.

 A receita, que é comum ao Laos e também servida na Malásia, Singapura e Indonésia é antiga - não consegui apurar quantos anos tem ( alguém faz ideia?)- e diz-se que é prova da mestria dos cozinheiros, fazer uma Tom Yum com o balanço perfeito entre o picante e o ácido.

Eu provei muitas versões desta sopa. Algumas melhores e mais ricas, outras com menos ingredientes mas que mesmo assim eram pequenos "shots" de energia e  força. É que parece que esta sopa tem qualquer coisa que nos puxa para cima; no fim da viagem, foi o último prato que comemos em Bangkok e o que mais nos deixou saudades. 

Receita em breve.

V

sábado, 22 de dezembro de 2012

Parrila e pizza em Buenos Aires, por Catarina Palma

Lembram-se quando vos falei da Catarina Palma e do Coração Nómada? Pois é, a Catarina já começou a sua viagem e já nos enviou o seu primeiro relato. Não leiam se estiverem com fome porque as palavras são tão boas que abrem literamente o apetite. A Catarina está na Argentina, em Buenos Aires e é de lá que nos escreve esta crónica.

Visitem o Facebook do Coração Nómada e o Blogue para acompanharem todas as aventuras do coração. Boas viagens Catarina e agora, comamos com os olhos. 

Parrila e pizza em Buenos Aires, por Catarina Palma



Argentina – um país de 2.8 milhões de quilómetros quadrados – é para muitos, principalmente para os carnívoros, sinónimo de carne, bifes e churrasco. É verdade que o prato mais famoso dos argentinos é, sem dúvida, a boa da parrilla, ou seja, churrasco de carne de vaca, onde não falta entrecosto, morcela e bife da vazia.
Sim, sem dúvida, fazer churrascos é uma especialidade dos argentinos e, aos domingos, um passeio pelos bairros mais tradicionais da cidade é acompanhado pelo cheiro do churrasco feito ao ar livre e pelas gargalhadas dos amigos e familiares que se juntam em volta da grelha para comer conversar. É certo que na minha estadia em Buenos Aires tenho encontrado muitos restaurantes de parrila - destacam-se ao longe pelos letreiros coloridos, fachada em madeira e pelas frequentes pinturas alusivas ao tema gaúcho, sendo os gaúchos homens do campo que vivem da criação de gado nas terras da pampa argentina - e que até já participei de um churrasco de domingo (de longe, muito melhor do que qualquer restaurante).
Ainda assim, os letreiros gaúchos são ultrapassados em número e em brilho pelos das pizzarias que pululam pela cidade. Umas colocam lado a lado em vitrines de comer com os olhos empanadas de vários feitos e inúmeros sabores – carne, frango e cogumelos, queijo e presunto, caprese -, pastas frescas, quiches e gnochi, enquanto outras se especializaram apenas em pizzas. Em Buenos Aires há pizzarias que se denominam como as melhores da cidade, outras colam-se ao tango e dizem-se tão tradicionais quanto essa dança a media luz, a verdade é que as há com várias décadas de história, atestadas pela data de fundação que orgulhosamente exibem por cima da soleira da porta.
Se as pizzas argentinas são melhores que as italianas? Isso não sei dizer, mas são muito boas e saboreá-las com este ventinho tropical tem um gosto muito especial.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Caril de batata doce e erva-limão

Quando comecei a escrever o último post sobre o Cambodja, a minha ideia era partilhar a receita que experimentei naquele dia, com o lemongrass em pó que trouxe de lá. Depois perdi-me na conversa e o post cresceu sem a receita. Mas esta vale a pena ser partilhada por isso cá vai!

Quem brilha nesta receita é o lemongrass:  em Portugal, chamam-lhe erva-limão, erva limeira, erva-príncipe e até erva-capim. Disseram-me que fazem todas partes da mesma família, que são citronelas mas que as espécies variam de país para país. Ando a ver se arranjo sementes de lemongrass Tailandesa e Cambojana para plantar, que era muito boa e eu preciso urgentemente de comer um Tom Yum a sério e sem o lemongrass certo não vou lá!

E para recordar uma viagem nada melhor do que uma boa comida simples e saudável com os sabores que vieram na mala; obrigada  ao lemongrass por este toque que nos empresta e saudades aos meus amigos no Cambodja, espero que aprovem esta intromissão!



Caril de Batata Doce com Erva-Limão (Lemongrass)    

♠ 4 pessoas

Ingredientes

8 batatas doces

1 cc pimenta preta em grão

200 ml  de leite de côco

100 g de côco ralado

1 cebola grande

5 colheres de sopa de lemongrass em pó

2 malaguetas vermelhas

1 cs raiz de gengibre ou galangal

2 cc sementes de coentros

1 fio de azeite ou óleo de côco

1/2 cc sal marinho

 

Como fazer: 

Numa frigideira anti-aderente, alourar uma cebola com azeite ou óleo de côco. Dourar também as sementes de coentros. Quando estiver aromatizado, misturar metade do côco ralado. Colocar as batatas doces cortadas aos cubos pequenos. Temperar com sal e pimenta preta e deixar saltear. Colocar em lume brando, tapar e deixar alourar 5 minutos. Colocar depois a raiz de gengibre ou galangal cortada em fatias fininhas.  Cortar as malaguetas em bocados pequeninos e juntar também.

Podem ou não tirar as sementes das malaguetas de acordo com o nível de picante que quiserem experimentar. Se quiserem muito picante, deixem as sementes.








Deitar o lemongrass e o leite de côco até tapar as batatas e deixar cozinhar, em lume muito brando por 15 minutos.

Provar novamente os temperos, reajustar e verificar se as batatas estão cozidas mas rijas. Deitar  o resto do côco ralado por cima e misturar antes de servir.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cambodja e lemongrass

[caption id="attachment_328" align="aligncenter" width="731"] Lemongrass em pó[/caption]

 

O Cambodja só não deixa saudade a quem não quiser senti-la. Dizem que temos sempre saudades dos sítios onde fomos felizes e todos podemos validar esta pequena Verdade. Ainda é recente a saudade dos lugares e amigos que lá ficaram até sabe-se lá quando; mas na segunda-feira acordei com saudades da comida. Pois.

Não, eu não tenho saudades só das comidas dos lugares mas os sabores são corvos das memórias e espicaçam-mas de uma maneira que me custa calar. E como eu sou a favor da liberdade de expressão, mesmo dos corvos mais atormentadores, entrego sempre tudo à mensagem. Mergulhemos então na saudade e já agora, que se faça um prato para a acalmar.

Em Siem Reap há poças grandes de chuva nas estradas. Há carros, poucos, motas, muitas, tuk-tuks com mota, vários, e bicicletas. Há cavalos e pessoas a pé. Há motas com quantas pessoas elas aguentem e grandes sorrisos para nós. Sorriem também uns para os outros quando estão em sarilhos. Calor e pó, chuva e lama. Tudo no mesmo dia e no mesmo lugar.

Há mercados que só funcionam de dia e outros que só funcionam à noite. Há turistas a montes, atraídos pela imponência de Angkor e em percursos pelo Sudeste Asiático. Vêm ou vão para a Tailândia, Laos, Vietname. Há uma rua "pub street" onde desfilam os turistas e os seus amigos. Com restaurantes, pubs, bares, lojas e massagistas. Tudo pensado para nós, turistas, que os de lá não têm dinheiro para aquilo. Esta rua só visitámos no último dia que lá estivemos porque entretanto havia coisas únicas para ver antes dos pubs temáticos para camones. Mas, no fim, lá fomos jantar com o nosso guia e amigo e estava-se muito bem. Temia uma Khao San road e afinal era tudo muito melhor. Não gostei nada de Khao San road, fico tão deprimida com turistas bêbados descontrolados e senhores de idade respeitável com adolescentes asiáticas pelo braço; parece que a experiência de khao san me traumatizou e agora quando me dizem que temos que ir até à rua-não-sei-quantos porque é lá que estão os backpackers fico sempre naquela. Hum, não.

 

[caption id="attachment_322" align="aligncenter" width="768"] Especiarias no mercado de Siem Reap[/caption]

[caption id="attachment_324" align="aligncenter" width="768"] Queijo e pasta de peixe no mercado de Siem Reap[/caption]

Lá perto desta cidade moderna Cambojana de Siem Reap, há aldeias rurais, bonitas , pobres e com um ar de simples felicidade. Há vacas muito magras mas que andam soltas pela beira do rio que tanto os sustenta, como os desalenta. Estas águas, que ora sobem ora descem, vêm literalmente do Topo do Mundo onde nasce o rio Mekong cujos movimentos ora empurram ora sugam as águas que alimentam esta aldeia. Desce pelo Planalto Tibetano, passa pela China, Myanmar, Laos, Tailândia, volta ao Laos, desce para o Cambodja e vai depois criar o Delta do Mekong para se  transformar em Mar.  A vida nesta aldeias é extraordinariamente regida pelos movimentos do rio.  As rotinas, tarefas e estilo de vida da aldeia adaptam-se ao que o rio lhes trás ou deixa de trazer.

Quando há água para isso, planta-se e transplanta-se o arroz. Vai-se à pesca. trata-se do que se apanhou. Faz-se queijo de peixe. ( Não provei mas não tinha um cheiro promissor. No entanto, acredito quando me disseram " cheira mal mas sabe bem", acontece muitas vezes com coisas gourmets, como aquela.

[caption id="attachment_319" align="aligncenter" width="768"] Recolha do peixe apanhado pelos barcos na aldeia perto de Siem Reap nas margens do Tonlé Sap[/caption]

O rio é também casa. Há lá pelo menos duas grandes aldeias flutuantes. Visitei a de Kampong Phluk e foi como reviver.  Tenho uma estória para contar sobre um rapaz-peixe que lá vive mas essa é para depois.

Em Kapong Phluk, também conhecido localmente, em gíria de turista, como floating forest, o rio é terra, chão, mãe e pai.  Há uma escola, um navio Hospital lá colocado por terceiros - muito obrigada em nome da Raça Humana, se me permitem - um templo e uma casa Comunitária. Tudo construído sobre estacas que se enterram no chão do rio. Há muitas casas e muitas pessoas também. Há algumas casas em terra, perto da escola. Barcos e crianças que tomam banho e lavam a roupa no rio e ficam debaixo de água tanto tempo sem respirar! Há um restaurante com cerveja fresca e muita comida onde quem tiver febre também pode lá ir curar-se com ventosas de vidro. No Cambodja a medicina tradicional é muito semelhante à Chinesa. Há as senhoras do remo, que levam os turistas a passear em pequenas canoas por entre a floresta flutuante.

[caption id="attachment_318" align="aligncenter" width="768"] Kampong Phluk[/caption]

 

[caption id="attachment_317" align="aligncenter" width="768"] Medicina tradicional em Kampong Phluk[/caption]

[caption id="attachment_320" align="aligncenter" width="768"] Kampong Phluk[/caption]

O Cambodja e a zona circundante a Siem Reap deixam saudades porque são lindos. Nem falei de Angkor porque já se sabe que estando em Siem Reap, vai-se lá parar e vai-se ver algumas das coisas mais belas que o Homem inspirado já fez. Mas a pérola deste país é quem lá habita.

Dizer que eles sorriem muito é dizer o que toda a gente diz quando aqui vem, mas dizer as verdades nunca será contra a moda de ser original nas palavras e pensamentos. No Cambodja sorrir é mostrar que se está feliz mas é também um sinal de boas-vindas e eles ainda não se fartaram de mostrar com que firmeza , humilde e satisfação se constroem .

Em Siem Reap, no mercado nocturno havia especiarias em saquinhos de 1 dólar. Havia todas. Lemongrass em pó, ainda bem que te comprei e te trouxe na mala, mal sabias tu que havias de matar a saudade do teu país com a ajuda de umas batatas doces e leite de Côco.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Azeite Picante de Caiena

Há Português que não adore azeite? Se for cru, melhor. Esta receita de azeite picante pode ser feita de duas maneiras: a cru ou a quente.

Se fizerem a cru, demora umas 2 semanas a ficar no ponto; a quente, são 25 minutos mas perdemos alguma da frescura do azeite e das suas propriedades.

Este azeite é ideal para acompanhar uma boa dukkah. Molha-se um belo pão neste liquido, depois na dukkah e temos um snack egípcio com um toque do Mundo.

Esta receita  que se segue não é de lado nenhum. É de todos os povos que gostam de azeite e coisas picantes.

[caption id="attachment_311" align="aligncenter" width="816"] Caiena seca, pimenta rosa, alho[/caption]

 

Para esterilizar os frascos de vidro: lavar em água quente e detergente para a loiça não-tóxico. Colocar os frascos lavados numa panela cheia de água. Ferver em lume brando por 40 minutos.



Receita de Azeite Picante de Caiena


Frasco de vidro esterilizado


250 cl de azeite virgem de boa qualidade


5 pimentas e caiena,secas, com semenentes


2 folhas de louro


2 colhes de sopa de coentros


1 colher de sopa de sumo de lima


1 colher de sopa de pimenta rosa moída de fresco


 Esterilizar o frasco de vidro


Para preparar a frio:


- misturar os ingredientes todos dentro do frasco de vidro, fechar e colocar num lugar fresco e seco. Agitar uma vez por dia, durante duas semanas. Utilizar em temperos, refogados  saladas, com dukkah, como "dipping" para pães rústicos, para marinadas e tudo o que vos apetecer.


Para preparar a quente:


- misturar todos os ingredientes numa frigideira de fundo grosso. Aromatizar em lume muito brando, sem deixar ferver, por 20-25 minutos. Deixar arrefecer. Passar por um filtro de café, pano mussolina ou até mesmo um passador de leite fininho. Guardar o liquido num frasco de vidro esterilizado e colocar no frigorífico. Aguenta 1 mês mas não chega até lá.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Dukkah - receita

[caption id="" align="aligncenter" width="500"] Dukkah - foto de gourmetmorsels.com[/caption]

Dukkha ( também se escreve Duqqa ou Dukka) é uma mistura de especiarias e sementes típica do Egipto.

Tradicionalmente serve-se com pão pita embebido em azeite ( fica excelente com este azeite picante), que é depois mergulhado na mistura "dukkha". Também pode ser utilizado num sem número de pratos. Ocorre-me colocá-lo em saladas frias ou quentes, gratinados, salpicar sobre umas espetadas de maçã grelhada e queijo feta, misturar no risotto...tantas possibilidades para o dukkha.

Como é normal nestes pratos típicos, eles variam de região para região; adaptam-se aos ingredientes que estão mais à mão. Esta receita  é composta por ingredientes que são comuns a virtualmente todas as receitas de Dukkha que encontrei.

Se forem fazer dukkha, façam logo uma boa quantidade. Preservado dentro de um frasco de vidro, no frigorífico ou num local fresco e seco, aguenta um mês e ficam com esta mistura saborosa e nutritiva sempre à mão para temperar saladas, temperar todo o tipo de carne e peixe e legumes antes e depois de cozinhados.

Faz-se assim:

Dukkha|Receita

Quantidade: +- 100 gramas

40 gramas de avelãs ( ou pistácios ou amêndoas)

30 gramas de pistácios ( ou avelãs ou amêndoas)

4 colheres de sopa  de sementes de sésamo

3 colheres de sopa de sementes de cominhos

3 colheres de sopa de sementes de coentros

1 colher de chá de grãos de pimenta preta

1 colher de chá de sal

Numa frigideira de fundo grosso, tostar os frutos secos e colocar de parte. Depois, tostar as sementes e as especiarias - as sementes de coentros, cominhos e pimenta primeiro, durante 5 minutos, em lume muito brando, ou até começarem a libertar os seus cheiros aromáticos.Depois, colocar o sal e as sementes de sésamo.  Ir mexendo sempre a frigideira.
Tenham cuidado, se utilizarem um processador/triturador eléctrico quando estiverem a triturar os frutos secos, não triturem demais, porque vão acabar com uma manteiga. Fica já a ideia para uma próxima receita: manteiga de frutos secos e especiarias.  Mas hoje, queremos dukkha!

Deixar esfriar. Colocar todos os ingredientes num processador, moinho de especiarias ou utilizar o tradicional almofariz para moer os frutos secos e as especiarias até ficarem num "farinha" grosseira,com alguns pedaços, ou não.

Neste passo podem adaptar a textura ao vosso gosto. Eu gosto de deixar alguns grãos maiores mas podem fazer mesmo uma farinha mais fininha.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Chá para Cleópatra

“Não tem que comprar, venha só experimentar. De onde são os senhores? Ah, Portugal. Cristiano Ronaldo! A senhora gosta de perfumes? Venha, posso oferecer um chá? Para si, o de Hibisco de Aswan. Como a Cleópatra!” - Os perfumistas artesanais egípcios são uns mestres. Compro!

”Muito obrigada, nunca provei. É uma flor aqui da região?”- pergunto.”Não, senhora. O hibisco existe em muitos países do Mundo. Na Ásia, por exemplo, é muito comum. Mas estes, são plantados em Aswan. Têm a melhor cor, veja, vermelho vivo.” - Coloca um punhado das grandes flores secas num bule, verte-lhes água a ferver por cima e tapa o bule. Tira 3 copos de uma prateleira e diz-me “Para si, só dois cubos de açúcar porque a senhora já é muito doce.” Solto uma gargalhada. Impecáveis. Passa-me um dos copos de vidro com o chá bem quente e algumas flores, agora tornadas maiores e suaves pela água, a boiar. Provo. Hum, que bom gosto tinha a Cleópatra. Como se lesse os meus pensamentos, o perfumista intervém: “ A rainha Cleópatra também usava um perfume igual a um que eu aqui tenho. Quem me ensinou foi o meu pai, que aprendeu do pai dele. Exclusivo da minha loja, a senhora quer experimentar?”

Foi aí que olhei bem para o interior da loja; solta da magia do ritual do chá, observo as prateleiras de frascos, frasquinhos e garrafas de vidro que ocupam todos os espaços livres da loja. Frasquinhos pequenos delicados, pintados com motivos vários, de cores várias. Frascos grandes com grandes quantidades de liquido oleoso. Outros, com líquidos cristalinos. Os líquidos tinham quase todos a mesma cor, dourada. O perfumista levanta-se e começa a trazer para a mesa frascos e frasquinhos. Começa por me oferecer um muito pequenino e muito delicado, cor de rosa, com alguns detalhes em dourado e com uma tampa bicuda. Diz-me “Este frasquinho é para si, mesmo se não comprar nada, é um presente. Agora vamos experimentar.”

No fim, descobri que ele não tinha a certeza nem do chá nem do perfume serem os favoritos de Cleópatra mas depois de provar e cheirar, que me interessam as certezas? Que se lixem os factos, este, é um chá para Cléopatra.

 

 Chá de Hibisco e Galangal

Para 1 litro de Chá

1 litro de água

10 flores de hibisco vermelho secas

4 fatias finas de raiz de galangal

Colocar as folhas de hibisco e a raiz de galangal num fervedor com um litro de água e levar ao fogo. Deixar levantar fervura em lume brando. Ferver durante 15 minutos, sempre em lume brando com o bule tapado. Desligar o lume. Misturar 3 colheres de sopa de mel cru. Tapar e deixar repousar 15 minutos antes de servir. Sentir-se Cleópatra.

Este chá também é excelente servido frio, por isso, se sobrar, podem colocar numa garrafa de vidro, colocar no frigorífico, e beber como chá frio.

[caption id="attachment_286" align="aligncenter" width="816"] Raiz fresca de galangal[/caption]
Fontes:


PS – O Galangal veio aqui parar por três motivos: primeiro porque estou cheia dele fresquinho que trouxe o mês passado da Tailandia e tenho que o aproveitar enquanto está fresco. Segundo, porque este primo do gengibre precisa de ser mais explorado. Tem-se estudado pouco o galangal mas é utilizado desde a antiguidade com muitos benefícios, nomeadamente respiratórios e do sistema imunitário o que é excelente para toda a gente.

Ele tem muitas outras propriedades, aconselho a seguirem os links abaixo para mais informação sobre o galangal e as suas propriedades medicinais.

Terceiro, porque parece que eles no antigo Egipto também consumiam imenso chá de galangal. Não é que é o par perfeito para o Hibisco de Cleópatra?

O Hibisco, não havendo provas de que era o chá favorito da rainha, podia bem ser! As suas propriedades relacionados com a estética adequam-se perfeitamente à taça sumptuosa de Cleópatra. Tem um elevado teor de antioxidantes , promove a saúde da pele, acalma os nervos, acalma o estômago, é afrodisíaco, diurético e muitas outras coisas mais.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Chinatown, Bangkok : Galeria de Fotos

 

Chinatown foi a primeira "atracção" que visitei quando cheguei a Bangkok.

 Quem já visitou sabe como é.  Aqui somos todos muito exigentes, já se sabe, e nem ninguém gosta muito de clichets mas é que há alguns que encaixam tão bem que até dá pena não calçar a luva. É banal dizer que a Ásia tem um picante aromático tão especial que nos contagia e deixa saudade em qualquer mortal fascinado pela vida e pela raça Humana? Então sou a mais banal das viajantes porque estas são as minhas palavras.

Para nós que amamos a comida, estão por todo o lado escondidas não uma mas muitas cerejas de todas as cores em cima de muitos bolos. Agora nestes próximos dias vou partilhar algumas  receitas, histórias e contos inspirados na Tailândia e no Camboja. Para introdução e como prometido, deixo-vos a minha galeria de flickr com algumas fotos de Bangkok em Chinatown.

Escusado será dizer que não lhe fazem justiça mas penso que mostram um pouco da diversidade. A forma como esta Chinatown está organizada é extremamente eficaz, dividida em pequenos “bairros” de especialidades. Há ruas e ruas onde só se vendem sapatos. E outras onde tudo o que existe no Mundo são ganchinhos para o cabelo. Os preços são acessíveis e é fácil de lá chegar de tuk tuk ou taxi ( o taxi na Tailândia é mais barato do que o tuk-tuk, mas tens que pedir ao taxista para ligar o "taximeter". Gastei imensos bhat em tuk tuks até descobrir que os taxis com "taximeter" eram bem mais baratos.

[AFG_gallery id='2']

Galeria completa no Flickr Eating Tales 

Bangkok não é uma cidade assim tão barata para nós Portugueses. 

A comida e estadia sim, mas os bens de "luxo"- roupas das “lojinhas da moda”, cigarros, bebidas alcoólicas, comidas ocidentais - são mais baratos do que cá mas não assim tanto. Em alguns caos, o preço é semelhante.

Fora de Bangkok é muito diferente e os preços baixam consideravelmente ( excepto no caso das Ilhas e praias – que, claro, são já autenticas máquinas de fazer dinheiro). Até mesmo em locais que não deixam de ser turísticos - como Kanchanaburi e Pak Chong, que são zonas com florestas e paisagens selvagens perto de Bangkok e recebem um número considerável de turistas- mas arranjaram maneira de manter os preços baixos, com qualidade e um ar genuíno. São sítios que o turismo não estragou porque são tão selvagens e puros que nada os tira do seu pedestal de “cidade na selva Asiática” .

Em Chinatown de Bangkok, não há limites para o que se pode encontrar à venda. A nível de comida, senti-me tantas vezes ignorante em relação aos nomes das coisas e é tão bom! Sumos de todas as frutas frescas, todo o tipo de legumes, carnes, peixes, mariscos, ervas, especiarias, molhos, doces, pães, comidas já feitas, em sacos de plástico, em folhas de bananeira, em cascas de côco, em caixas de papel, de cartão, de plástico. Sacos de arroz de todos os tamanhos. Ovos pintados de azul e côr de rosa.

Gosto tanto de me sentir assim, como um burro a olhar para um palácio. Havia de ser burro todos os dias para ver coisas que me pasmassem.

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Chinatown de Bangkok - peixes zombie e sumo de romã.

Snap shots in Chinatown, Bangkok. Read the blog if you want to read about food, books and travels.

Estamos em Bangkok! Andei a sonhar com esta cidade e os paraísos culinários que aqui ía encontrar mas tenho que admitir que não estava preparada para algumas das coisas que tenho encontrado. Expectativas superadas.

Esta foto foi tirada em Chinatown - um lugar que tem que ser visto. As cores e odores das ruas onde se vende comida são avassaladores. Muitas vezes no mau sentido.

Não aconselho a pessoas mais sensíveis pois os animais mortos estão expostos de formas que podem ser consideradas cruéis.

Fiquei particularmente impressionada com uma técnica que utilizam para conservar os peixes vivos já depois de cortados ao meio. Prendem-nos de cabeça para baixo com uns ganchos que atravessam a barriga e eles ficam ali a agonizar entre a vida e a morte, meio zombies.

Por outro lado os chás em folha, as especiarias, os sumos e as frutas fresquinhos e os sorrisos dos Asiáticos compensam a viagem. Largamente.

Estranhei a falta de turistas na área. Aqui em Bangkok há turistas em todo o lado. Talvez fosse muito cedo. Não tenho dormido quase nada com o calor e a excitação e neste dia penso que às 8 da manhã já andávamos em Chinatown. A nossa guesthouse era lá perto.

Recomendo, já agora, o restaurante da nossa guesthouse, River Vibe. Comida muito boa com uma vista fabulosa para o rio e para a cidade. Os preços andam á volta dos 120 bhat por prato - 3 ou 4 euros, por aí.

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Queria escrever mais. Tenho tantas fotos de Chinatown!

Mas estou no telemovel, são 7:40 da manhã, estão 30 graus e vou só ali à piscina num instantinho. Até já! V

sábado, 27 de outubro de 2012

Garam Masala de Legumes

Tenho uma grande paixão pela culinária asiática e pelas suas histórias. Ela é mística e mágica e não tem vergonha.

Hoje vou-vos receitar uma adaptação minha de um prato Indiano de Garam Masala de vegetais.

De onde vem esta receita não sei bem mas tenho a certeza absoluta de que já foi feita muitas e muitas vezes um pouco por toda a Índia. Com um ou outro ingrediente ou técnica a mais ou a menos, não vos sei dizer se quem se lembrou dela pela primeira vez estava no Norte ou no Sul, no Este ou no Oeste Indiano. No entanto, posso arriscar que o mais provável é que tenha sido no Norte da Índia onde o uso da garam masala é mais comum embora não exclusivo.

Não me admirava estar a roubar esta receita a um qualquer antigo chef Kashmiri. Então os créditos vão para a generosidade culinária que habita as esferas celestes redundantes do céu e de Terra. Sim.

A garam masala é a estrela principal da história que se come. Então, Garam ( quente, acondimentada/picante) Masala (pasta, mistura) é o nome de uma misturada acondimentada de especiarias. Certo.
Um pouco por toda a Índia esta mistura varia, com especiarias que se somam e outras que se subtraem ao almofariz, e nenhuma versão é considerada mais genuína do que a outra. É flexível assim.

[caption id="attachment_102" align="aligncenter" width="617"] Especiarias comuns utilizadas na Garam Masala Indiana. Foto por Holger Casselmann, utilizado sob a licença Creative Commons com licença do autor.[/caption]

Nesta receita utilizei uma fórmula de garam masala muito comum no Norte da Índia. Para fazer a pasta utilizei as seguintes especiarias:

Canela em pó
Cardomomo verde, castanho e preto
Grãos de Pimenta branca e preta
Sementes de Cominhos
Cravinho

Para fazer a garam masala, tostam-se todas as especiarias menos a canela, que nesta receita vamos usar já em pó. Tostar e moer paus de canela em casa é um processo que requer alguns equipamentos específicos e neste caso, apesar das especiarias inteiras serem sempre preferíveis, este é um dos casos onde faz sentido utilizar a canela em pó.

Para aprenderem a tostar especiarias, recomendo o slide-show no blogue Serious Eats:

Slide Show | How to Toast Spices | Serious Eats.

Todo o blogue é muito interessante para quem gosta de culinária e os slideshows ensinam facilmente.

Depois de tostadas, as especiarias devem ser moídas. Com almofariz, ou moinho de café ou moinho de especiarias. Junta-se no fim a canela em pó, e temos uma garam masala.

Depois passamos aos legumes. Para este receita sugiro ( apesar de funcionar com basicamente qualquer vegetal ou legume):

* As quantidades são a olho e a gosto do cozinheiro. Tanta liberdade, não se assustem.

brotos de espinafre
alho francês
cebolas
cenouras
tomates vermelhos
pimento vermelho
pimento laranja
couve coração
repolho

[caption id="attachment_101" align="aligncenter" width="612"] Garam Masala de Legumes em preparação - a saltear os legumes. Foto Eating Tales.[/caption]

Depois a história segue assim. Numa frigideira grande, deitas uma colher de sopa de óleo de côco prensado a frio e colocas a garam masala. Deixas libertar os aromas por uns minutos e misturas pequenas e finas tiras de raiz de gengibre fresco. Deixas aromatizar outra vez. És paciente e curioso. Provas tudo enquanto fazes, compreendes e sentes a alquimia do que estás a fazer. Mandas umas pepitas tímidas de sal marinho. Juntas a cebola em rodelas. Douras a choradeira e juntas os vegetais.

Primeiro o alho francês, a cenoura, e os pimentos. Depois os tomates, a couve e o repolho e por fim os espinafres.

Já pareces um cozinheiro kashmiri a preparar um roghan josh como manda a tradição: por decreto em honra sagrado, não falhar a ordem dos ingredientes.

Um dia vou contar-vos uma história sobre dois chefs Kashmiri e a receita do roghan josh, uma receita que curiosamente foi adoptada tradicionalmente pelos dois tipos diferentes de culinária Kashmiri, a Pundit/Pandit ( de influências Budistas) e a culinária Kashmiri Islâmica. Apesar de inspirações religiosa diferentes, ambas as culinárias acabaram por adoptar o mesmo prato como um dos pratos que as define culturalmente. Os Kashmiri Islâmicos chegaram mesmo a incluir o roghan josh na tradicional refeição de 36 pratos,Wazwan, a qual é descrita por eles como definição da sua indentidade cultural. Mas os espinafres já estão salteados. Volta para a frigideira.

[caption id="attachment_107" align="aligncenter" width="530"] Preparação do Wazwan - foto de Mahindra Homestays.[/caption]

Então, depois é deixar os verdes saltear um pouco. Deixar saltear 6 minutos a partir do momento em que se colocam os espinafres. Depois, despejar leite de côco, tapar e deixar cozinhar mais 6 ou 7. Provar e decidir se os legumes estão no ponto e saborosos. Terminar com umas salpicadelas de sementes de papoila e coentros picados de fresco.

Se quisesses chamar a esta uma refeição vegetariana kashmiri, podias adicionar-lhe um arroz ligeiramente pegajoso como eles lá gostam. Eu também gosto. Bom apetite.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Koshary no Cairo

Eu adoro cidades grandes, barulhentas e cheias de palpitações e o Cairo é aquele caldeirão de culturas e costumes, de gente sorridente e resistente que se trata como família. Esta foi a minha experiência muito graças ao Ahmed, um jovem do Cairo que conheci em Sharm El Sheikh e com quem viajei depois para o Cairo. Graças à sua hospitalidade, pude conhecer o Cairo com os olhos de quem lá vive e de que ama aquela cidade. Foi com ele que provei algumas das street foods mais simplesmente deliciosas até à data.

[caption id="attachment_82" align="aligncenter" width="516"] Passeio nocturno no Nilo[/caption]

No segundo dia da visita, muitos passeios e algumas pirâmides depois, voltámos à cidade esfomeados e o Ahmed decidiu que tinha chegado a hora de nos dar provar o Koshary, um dos pratos tipicos do Cairo, cheio de sabor e cor, com alma de vencedor. O Ahmed é apaixonado por aquele prato e tendo em conta o número de restaurantes e bancas de comida de rua que vendem exclusivamente o koshary, posso concluir que é um bem comum no Cairo. Este prato serve de pequeno almoço, almoço, lanche e jantar. É vegetariano e cheio de proteínas. É barato, confortante e muito saboroso. À primeira vista parece uma misturada de alimentos improváveis mas é uma misturada que deixa saudades. Eu já comia duas tigelas.

O local que o Ahmed escolheu para nós foi o famoso Abou Tarek Koshary. É um sítio muito giro porque é frequentado por muitos locais e alguns turistas. Na verdade, quem lá vimos mais foram mesmo locais, grupos de dois e muitas famílias a partilhar juntas o único prato que se serve naquele restaurante. Havia um ou outro turista ocasionais porque este lugar está na rota dos viajantes comilões. O Anthony Bourdain do No Reservations esteve lá uma vez a filmar e falou maravilhas e penso que o colocou um pouco no mapa. Nos fóruns tenho lido muitos viajantes que lá foram parar precisamente por causa do Bourdain. Não sei se o Ahmed conhece o Bourdain mas parece que tem tanto bom gosto quanto ele!

[caption id="attachment_76" align="aligncenter" width="516"] Koshary no restaurante Abou Tarek, Cairo[/caption]

O Koshary é basicamente uma tigela de arroz, lentilhas castanhas, grão e massa servidos com um molho de tomate picante ( Deuses, e que molho!) e cebolas fritas caramelizadas no topo. Os locais dizem que este prato tem uns mil anos de existência e é originalmente um prato Indiano que chegou ao Egipto através da Rota das Especiarias. Mas o Egipto adoptou-o, tomou conta dele e mostrou-o ao Mundo. No Abou Tarek tinham nas mesas dois recipientes, um com vinagre de alho egípcio e outro com um molho picante de chili. Tão bom.

Olhando para ele, não parece muito apelativo mas depois de provares já não olhas da mesma maneira para aquela amálgama proteica e deliciosa de leguminosas, vegetais e cereais. O molho de tomate cheio de cominhos e pimentão apetece comer à colher e quanto às cebolas caramelizadas o único defeito é serem poucas. Quando lá estive em 2011, cada tigela de Koshary custava 10 Libras Egípcias, actualmente equivale a €1,30. Até nos sentimos mal quando vem a conta.

O Ahmed diz que normalmente come duas mas eu fiquei super feliz só com uma. Agora fico a pensar que devia ter comido a outra. Sabes, como quando vais a casamentos e não comes a mousse eno outro dia acordas a pensar nela...

Ah, claro que em breve dou a receita. * V

domingo, 21 de outubro de 2012

Carne de Cão na Ásia

Sopa de morcego servida com um "shot" de sangue do bicho, vodka com sangue e coração cru de cobra, aranhas fritas, rato no espeto, larvas de bicho da seda, carne de cão. São estas e outras iguarias menos exóticas que me esperam pelos 3 países da Indochina que vou visitar e provar já em Novembro. A tão aguardada viagem (que andei o ano todo a sonhar com ela!) não será, de todo, aborrecida do ponto de vista gastronómico.

Enquanto me perco pelos fóruns e salivo a planear os roteiros que me vão permitir provar alguns dos pratos tradicionais dos paraísos gastronómicos que são a Tailândia e o Vietname -o Cambodja, por onde também vou passar, fica muitas vezes na sombra destes dois vizinhos gigantes mas a culinária Khmer está a ripostar e eu vou estar lá para provar - questiono-me: até onde me levará a minha curiosidade culinária? Na hora da verdade serei capaz de trincar a pata peluda de uma aranha?

[caption id="" align="aligncenter" width="640"] Aranha Frita no Cambodja | foto por AsianTown.NET[/caption]

 

Uma coisa já me prometi, não bebo nem como nada com sangue fresco. Há sopas de sangue cru no Norte do Vietname, a famosa e polémica tiết canh e sopas de morcego que se fazem acompanhar por copinhos de sangue do próprio entre outros pratos que, ao incorporarem sangue fresco na sua composição, oferecem um grande sustento a quem os consome mas ao meu paladar ocidental, não apelam nem intrigam.

[caption id="" align="aligncenter" width="420"] Tiết canh, sopa vietnamita de sangue fresco de pato - foto por Dat Jornal Viet[/caption]

Estes países têm alguns dos paladares que mais gosto. Comida Asiática é mesmo no caminho certo do meu palato mas lá pelo meio também se misturam muitas coisas que temo encontrar. Eu tenho uma visão muito pouco hipócrita no que toca às tradições culinárias de cada cultura e penso que quem come carne de animal não tem um forte direito moral de se indignar com os vietnamitas que comem com tanto gosto carne de cão. Eu sei que é sofrido, eu sei que eu vou sentir dor com a disposição cruel dos cadáveres destes nossos amigos mas será pior do que comer uma vaca? Um coelhinho felpudo e fofinho?

Digam-me de vossa justiça: existe grande diferença entre as deliciosas espetadas de vaca nas ruas de Bangkok e os churrascos de cão no Vietname? Para mim a diferença é cultural somente e apenas mas não nego que me falta também a coragem de provar.

[caption id="" align="aligncenter" width="600"] Comida de Rua em Bangkok - foto de Travelers Today | By Lena Vazifdar.[/caption]

Há muitos maneiras de sair de dentro do nosso umbigo e a melhor delas é viajar. Coloca as coisas em perspectiva.

Ah, quase que me esquecia dos gafanhotos. Os vegetarianos que me perdoem, mas a cabecinha de um ou outro vou ter que trincar. Até já! V

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