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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Caril de batata doce e erva-limão

Quando comecei a escrever o último post sobre o Cambodja, a minha ideia era partilhar a receita que experimentei naquele dia, com o lemongrass em pó que trouxe de lá. Depois perdi-me na conversa e o post cresceu sem a receita. Mas esta vale a pena ser partilhada por isso cá vai!

Quem brilha nesta receita é o lemongrass:  em Portugal, chamam-lhe erva-limão, erva limeira, erva-príncipe e até erva-capim. Disseram-me que fazem todas partes da mesma família, que são citronelas mas que as espécies variam de país para país. Ando a ver se arranjo sementes de lemongrass Tailandesa e Cambojana para plantar, que era muito boa e eu preciso urgentemente de comer um Tom Yum a sério e sem o lemongrass certo não vou lá!

E para recordar uma viagem nada melhor do que uma boa comida simples e saudável com os sabores que vieram na mala; obrigada  ao lemongrass por este toque que nos empresta e saudades aos meus amigos no Cambodja, espero que aprovem esta intromissão!



Caril de Batata Doce com Erva-Limão (Lemongrass)    

♠ 4 pessoas

Ingredientes

8 batatas doces

1 cc pimenta preta em grão

200 ml  de leite de côco

100 g de côco ralado

1 cebola grande

5 colheres de sopa de lemongrass em pó

2 malaguetas vermelhas

1 cs raiz de gengibre ou galangal

2 cc sementes de coentros

1 fio de azeite ou óleo de côco

1/2 cc sal marinho

 

Como fazer: 

Numa frigideira anti-aderente, alourar uma cebola com azeite ou óleo de côco. Dourar também as sementes de coentros. Quando estiver aromatizado, misturar metade do côco ralado. Colocar as batatas doces cortadas aos cubos pequenos. Temperar com sal e pimenta preta e deixar saltear. Colocar em lume brando, tapar e deixar alourar 5 minutos. Colocar depois a raiz de gengibre ou galangal cortada em fatias fininhas.  Cortar as malaguetas em bocados pequeninos e juntar também.

Podem ou não tirar as sementes das malaguetas de acordo com o nível de picante que quiserem experimentar. Se quiserem muito picante, deixem as sementes.








Deitar o lemongrass e o leite de côco até tapar as batatas e deixar cozinhar, em lume muito brando por 15 minutos.

Provar novamente os temperos, reajustar e verificar se as batatas estão cozidas mas rijas. Deitar  o resto do côco ralado por cima e misturar antes de servir.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cambodja e lemongrass

[caption id="attachment_328" align="aligncenter" width="731"] Lemongrass em pó[/caption]

 

O Cambodja só não deixa saudade a quem não quiser senti-la. Dizem que temos sempre saudades dos sítios onde fomos felizes e todos podemos validar esta pequena Verdade. Ainda é recente a saudade dos lugares e amigos que lá ficaram até sabe-se lá quando; mas na segunda-feira acordei com saudades da comida. Pois.

Não, eu não tenho saudades só das comidas dos lugares mas os sabores são corvos das memórias e espicaçam-mas de uma maneira que me custa calar. E como eu sou a favor da liberdade de expressão, mesmo dos corvos mais atormentadores, entrego sempre tudo à mensagem. Mergulhemos então na saudade e já agora, que se faça um prato para a acalmar.

Em Siem Reap há poças grandes de chuva nas estradas. Há carros, poucos, motas, muitas, tuk-tuks com mota, vários, e bicicletas. Há cavalos e pessoas a pé. Há motas com quantas pessoas elas aguentem e grandes sorrisos para nós. Sorriem também uns para os outros quando estão em sarilhos. Calor e pó, chuva e lama. Tudo no mesmo dia e no mesmo lugar.

Há mercados que só funcionam de dia e outros que só funcionam à noite. Há turistas a montes, atraídos pela imponência de Angkor e em percursos pelo Sudeste Asiático. Vêm ou vão para a Tailândia, Laos, Vietname. Há uma rua "pub street" onde desfilam os turistas e os seus amigos. Com restaurantes, pubs, bares, lojas e massagistas. Tudo pensado para nós, turistas, que os de lá não têm dinheiro para aquilo. Esta rua só visitámos no último dia que lá estivemos porque entretanto havia coisas únicas para ver antes dos pubs temáticos para camones. Mas, no fim, lá fomos jantar com o nosso guia e amigo e estava-se muito bem. Temia uma Khao San road e afinal era tudo muito melhor. Não gostei nada de Khao San road, fico tão deprimida com turistas bêbados descontrolados e senhores de idade respeitável com adolescentes asiáticas pelo braço; parece que a experiência de khao san me traumatizou e agora quando me dizem que temos que ir até à rua-não-sei-quantos porque é lá que estão os backpackers fico sempre naquela. Hum, não.

 

[caption id="attachment_322" align="aligncenter" width="768"] Especiarias no mercado de Siem Reap[/caption]

[caption id="attachment_324" align="aligncenter" width="768"] Queijo e pasta de peixe no mercado de Siem Reap[/caption]

Lá perto desta cidade moderna Cambojana de Siem Reap, há aldeias rurais, bonitas , pobres e com um ar de simples felicidade. Há vacas muito magras mas que andam soltas pela beira do rio que tanto os sustenta, como os desalenta. Estas águas, que ora sobem ora descem, vêm literalmente do Topo do Mundo onde nasce o rio Mekong cujos movimentos ora empurram ora sugam as águas que alimentam esta aldeia. Desce pelo Planalto Tibetano, passa pela China, Myanmar, Laos, Tailândia, volta ao Laos, desce para o Cambodja e vai depois criar o Delta do Mekong para se  transformar em Mar.  A vida nesta aldeias é extraordinariamente regida pelos movimentos do rio.  As rotinas, tarefas e estilo de vida da aldeia adaptam-se ao que o rio lhes trás ou deixa de trazer.

Quando há água para isso, planta-se e transplanta-se o arroz. Vai-se à pesca. trata-se do que se apanhou. Faz-se queijo de peixe. ( Não provei mas não tinha um cheiro promissor. No entanto, acredito quando me disseram " cheira mal mas sabe bem", acontece muitas vezes com coisas gourmets, como aquela.

[caption id="attachment_319" align="aligncenter" width="768"] Recolha do peixe apanhado pelos barcos na aldeia perto de Siem Reap nas margens do Tonlé Sap[/caption]

O rio é também casa. Há lá pelo menos duas grandes aldeias flutuantes. Visitei a de Kampong Phluk e foi como reviver.  Tenho uma estória para contar sobre um rapaz-peixe que lá vive mas essa é para depois.

Em Kapong Phluk, também conhecido localmente, em gíria de turista, como floating forest, o rio é terra, chão, mãe e pai.  Há uma escola, um navio Hospital lá colocado por terceiros - muito obrigada em nome da Raça Humana, se me permitem - um templo e uma casa Comunitária. Tudo construído sobre estacas que se enterram no chão do rio. Há muitas casas e muitas pessoas também. Há algumas casas em terra, perto da escola. Barcos e crianças que tomam banho e lavam a roupa no rio e ficam debaixo de água tanto tempo sem respirar! Há um restaurante com cerveja fresca e muita comida onde quem tiver febre também pode lá ir curar-se com ventosas de vidro. No Cambodja a medicina tradicional é muito semelhante à Chinesa. Há as senhoras do remo, que levam os turistas a passear em pequenas canoas por entre a floresta flutuante.

[caption id="attachment_318" align="aligncenter" width="768"] Kampong Phluk[/caption]

 

[caption id="attachment_317" align="aligncenter" width="768"] Medicina tradicional em Kampong Phluk[/caption]

[caption id="attachment_320" align="aligncenter" width="768"] Kampong Phluk[/caption]

O Cambodja e a zona circundante a Siem Reap deixam saudades porque são lindos. Nem falei de Angkor porque já se sabe que estando em Siem Reap, vai-se lá parar e vai-se ver algumas das coisas mais belas que o Homem inspirado já fez. Mas a pérola deste país é quem lá habita.

Dizer que eles sorriem muito é dizer o que toda a gente diz quando aqui vem, mas dizer as verdades nunca será contra a moda de ser original nas palavras e pensamentos. No Cambodja sorrir é mostrar que se está feliz mas é também um sinal de boas-vindas e eles ainda não se fartaram de mostrar com que firmeza , humilde e satisfação se constroem .

Em Siem Reap, no mercado nocturno havia especiarias em saquinhos de 1 dólar. Havia todas. Lemongrass em pó, ainda bem que te comprei e te trouxe na mala, mal sabias tu que havias de matar a saudade do teu país com a ajuda de umas batatas doces e leite de Côco.

sábado, 27 de outubro de 2012

Garam Masala de Legumes

Tenho uma grande paixão pela culinária asiática e pelas suas histórias. Ela é mística e mágica e não tem vergonha.

Hoje vou-vos receitar uma adaptação minha de um prato Indiano de Garam Masala de vegetais.

De onde vem esta receita não sei bem mas tenho a certeza absoluta de que já foi feita muitas e muitas vezes um pouco por toda a Índia. Com um ou outro ingrediente ou técnica a mais ou a menos, não vos sei dizer se quem se lembrou dela pela primeira vez estava no Norte ou no Sul, no Este ou no Oeste Indiano. No entanto, posso arriscar que o mais provável é que tenha sido no Norte da Índia onde o uso da garam masala é mais comum embora não exclusivo.

Não me admirava estar a roubar esta receita a um qualquer antigo chef Kashmiri. Então os créditos vão para a generosidade culinária que habita as esferas celestes redundantes do céu e de Terra. Sim.

A garam masala é a estrela principal da história que se come. Então, Garam ( quente, acondimentada/picante) Masala (pasta, mistura) é o nome de uma misturada acondimentada de especiarias. Certo.
Um pouco por toda a Índia esta mistura varia, com especiarias que se somam e outras que se subtraem ao almofariz, e nenhuma versão é considerada mais genuína do que a outra. É flexível assim.

[caption id="attachment_102" align="aligncenter" width="617"] Especiarias comuns utilizadas na Garam Masala Indiana. Foto por Holger Casselmann, utilizado sob a licença Creative Commons com licença do autor.[/caption]

Nesta receita utilizei uma fórmula de garam masala muito comum no Norte da Índia. Para fazer a pasta utilizei as seguintes especiarias:

Canela em pó
Cardomomo verde, castanho e preto
Grãos de Pimenta branca e preta
Sementes de Cominhos
Cravinho

Para fazer a garam masala, tostam-se todas as especiarias menos a canela, que nesta receita vamos usar já em pó. Tostar e moer paus de canela em casa é um processo que requer alguns equipamentos específicos e neste caso, apesar das especiarias inteiras serem sempre preferíveis, este é um dos casos onde faz sentido utilizar a canela em pó.

Para aprenderem a tostar especiarias, recomendo o slide-show no blogue Serious Eats:

Slide Show | How to Toast Spices | Serious Eats.

Todo o blogue é muito interessante para quem gosta de culinária e os slideshows ensinam facilmente.

Depois de tostadas, as especiarias devem ser moídas. Com almofariz, ou moinho de café ou moinho de especiarias. Junta-se no fim a canela em pó, e temos uma garam masala.

Depois passamos aos legumes. Para este receita sugiro ( apesar de funcionar com basicamente qualquer vegetal ou legume):

* As quantidades são a olho e a gosto do cozinheiro. Tanta liberdade, não se assustem.

brotos de espinafre
alho francês
cebolas
cenouras
tomates vermelhos
pimento vermelho
pimento laranja
couve coração
repolho

[caption id="attachment_101" align="aligncenter" width="612"] Garam Masala de Legumes em preparação - a saltear os legumes. Foto Eating Tales.[/caption]

Depois a história segue assim. Numa frigideira grande, deitas uma colher de sopa de óleo de côco prensado a frio e colocas a garam masala. Deixas libertar os aromas por uns minutos e misturas pequenas e finas tiras de raiz de gengibre fresco. Deixas aromatizar outra vez. És paciente e curioso. Provas tudo enquanto fazes, compreendes e sentes a alquimia do que estás a fazer. Mandas umas pepitas tímidas de sal marinho. Juntas a cebola em rodelas. Douras a choradeira e juntas os vegetais.

Primeiro o alho francês, a cenoura, e os pimentos. Depois os tomates, a couve e o repolho e por fim os espinafres.

Já pareces um cozinheiro kashmiri a preparar um roghan josh como manda a tradição: por decreto em honra sagrado, não falhar a ordem dos ingredientes.

Um dia vou contar-vos uma história sobre dois chefs Kashmiri e a receita do roghan josh, uma receita que curiosamente foi adoptada tradicionalmente pelos dois tipos diferentes de culinária Kashmiri, a Pundit/Pandit ( de influências Budistas) e a culinária Kashmiri Islâmica. Apesar de inspirações religiosa diferentes, ambas as culinárias acabaram por adoptar o mesmo prato como um dos pratos que as define culturalmente. Os Kashmiri Islâmicos chegaram mesmo a incluir o roghan josh na tradicional refeição de 36 pratos,Wazwan, a qual é descrita por eles como definição da sua indentidade cultural. Mas os espinafres já estão salteados. Volta para a frigideira.

[caption id="attachment_107" align="aligncenter" width="530"] Preparação do Wazwan - foto de Mahindra Homestays.[/caption]

Então, depois é deixar os verdes saltear um pouco. Deixar saltear 6 minutos a partir do momento em que se colocam os espinafres. Depois, despejar leite de côco, tapar e deixar cozinhar mais 6 ou 7. Provar e decidir se os legumes estão no ponto e saborosos. Terminar com umas salpicadelas de sementes de papoila e coentros picados de fresco.

Se quisesses chamar a esta uma refeição vegetariana kashmiri, podias adicionar-lhe um arroz ligeiramente pegajoso como eles lá gostam. Eu também gosto. Bom apetite.

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